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Aquarius.tv

DEMOCRACIA DO RISO: O HUMOR É PARA TODOS?

Nesta edição: o sumiço dos humorísticos na TV, o yoga do riso, os transtornos de humor na pandemia e um recado do Papa.

Devo admitir, temendo julgamentos: ainda sou um telespectador da TV aberta. Não é por que a internet chegou dominando território que somos obrigados a abandonar os velhos hábitos. Tem lugar para todos nas minhas horas de descanso.


Outro dia, refletindo sobre os programas humorísticos que marcaram minha infância, bateu a deprê. Não pela qualidade do que se via, porque, apesar de haver opiniões contrárias, para mim eram a nata das produções televisivas. O sentimento veio por um detalhe: cadê eles? E quando falo “eles”, não me refiro especificamente aos exibidos naquela época, mas aos seus substitutos, suas versões renovadas, ou até novos formatos que combinem mais com a audiência de hoje.


Fui diretamente influenciado pelo que me fez rir quando era criança. Se gosto de escrever, muito tem a ver com as horas e horas que passava no sofá, vidrado naquelas figuras hilárias, e em choque com a capacidade de criação dos redatores por trás das piadas. Comecei a brincar de produzir humor aos 16 anos, e há 20 venho tentando parar. Dá dó zapear pelos canais que ajudaram a formar meus gostos e perceber que não existe mais espaço para esse tipo de conteúdo.

Dos clássicos, só A Praça é Nossa segue na ativa, pelo SBT. Quem tinha o costume de acompanhar as tradicionais “escolinhas”, os compilados de esquetes cômicos costurados por números musicais, ou mesmo as simples (mas geniais) trapalhadas de Didi, Dedé, Mussum e Zacarias, se sente órfão de comédias. Para quem vive na internet, é fácil, mas enquanto estamos presos em nossas bolhas, ainda tem muita gente sem acesso, ou que não conseguiu se adequar às manhas das novas tecnologias. E o pior é que talvez sejam essas pessoas as que mais necessitam do riso.


“Rir é o melhor remédio”, comentam por aí. O ato pode até não substituir os medicamentos tradicionais, mas é mesmo reconhecido como um agente terapêutico poderoso. O chamado yoga do riso foi criado na Índia e vem apresentando resultados satisfatórios há décadas. São técnicas do yoga tradicional combinadas com dinâmicas que envolvem exercícios lúdicos e gargalhadas intencionais. E fingir graça funciona? Como um estímulo inicial, parece que sim. Experimente começar a rir de propósito e veja se isso não contagia quem está em volta. O documentário Hermógenes: Professor e Poeta do Yoga mostra que ele — precursor do hatha yoga no Brasil — também já trazia o humor para suas conferências, o que batizou de risoterapia. Os resultados na saúde são diversos.

Durante a risada, o corpo libera neurotransmissores poderosos, que garantem a sensação de relaxamento, ajudam a reduzir os níveis de cortisol (aquele mala do estresse) e até melhoram a imunidade. Fora isso, pessoas bem-humoradas também têm vantagem no cuidado com a saúde por outro motivo: o prazer de viver. Ou vai dizer que você gosta de acordar de mau humor e ainda ter a obrigação de ir à academia? Levando a vida de maneira leve, as atividades do dia a dia são encaradas com menos ranço. Acho que preciso rir mais. Mas a tendência, se dependermos do sistema, é que isso não aconteça.


Em 2015, um tradicional humorístico que ia ao ar aos sábados teve seu formato bruscamente alterado, dando lugar a um conceito mais refinado que pudesse captar a atenção dos jovens. A ideia, pelo visto, era competir com o humor que estava se consolidando nas redes. Agora me diga: o público jovem, em geral, quer ficar em casa num sábado à noite assistindo televisão? E aberta? O velho humor de bordões, com personagens fixos e previsíveis, foi trocado por uma sucessão de microesquetes que os antigos espectadores não tinham nem paciência para tentar entender. Claro que as emissoras têm compromissos comerciais e não definem suas grades por pena ou empatia, mas dói pensar que aquele que foi pelo ralo podia ser o único motivo de alguém dar uma risada na semana.


"O humor é uma faceta do amor. É uma maneira muito afagante de ver a vida."

JĂ´ Soares

No Rio de Janeiro, uma lei promulgada em 2025 permite e incentiva as ações cômicas nos hospitais da rede municipal de saúde. Quando os grupos (geralmente de palhaços) apresentam seus números aos pacientes, tudo muda. A internação pode ser necessária para a melhora do corpo, mas é comum que o psicológico se fragilize nessas situações. Quando uma distração positiva entra em cena, os pensamentos negativos saem.


Um estudo publicado no ano passado no Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences analisou o número de diagnósticos de transtornos de humor no Brasil, levando em conta o período de 2017 a 2023 e dando ênfase aos impactos da pandemia de COVID-19 no bem-estar mental. Como resultado, a pesquisa revelou um aumento de 40,8% nos casos, principalmente a partir de 2021, com pico já em um momento pós-pandêmico (2023). Será que um dia vamos nos livrar dessa herança que o isolamento, o medo e o luto nos deixaram?


A internet foi imprescindível naquela época, não dá para negar. Se compararmos com a gripe espanhola, que infectou um quarto da população mundial há mais de um século, nem podemos dizer que estivemos isolados a partir de 2020. A comunicação foi simplificada. O acesso à informação se tornou instantâneo. E, claro, as comédias disponíveis nos streamings também tiraram muita gente da fossa. Mas e quem não tinha acesso? É inaceitável que alguém tenha vivido uma pandemia global em condições similares às de quem passou por isso 102 anos antes. E ainda há os que queiram mascarar as desigualdades. Se nem o riso é democrático, imagine se as oportunidades seriam...

Ter motivos e a capacidade de rir é um privilégio. O falecido Papa Francisco disse certa vez (antes de falecer, claro): “O senso de humor é um certificado de sanidade. Há mais de quarenta anos, rezo todos os dias a oração para pedir senso de humor. Nela, pedimos ao Senhor a capacidade de sorrir, de rir, de enxergar o lado ridículo e o não ridículo das coisas, para saber ver que a vida sempre tem algo para se sorrir. O senso de humor humaniza.” Faz sentido, Vossa Santidade, faz sentido.


Como bem afirmou o inesquecível Paulo Gustavo, "Rir é um ato de resistência." Que possamos seguir resistindo, rindo e fazendo rir. O ativismo do humor para todos precisa de mais manifestantes voluntários. Você teria disposição de lutar por essa causa de graça? (Ba-dum-tss).

Neste texto e para ir alĂ©m:

Documentário: Hermógenes: Professor e Poeta do Yoga, na aquarius

Documentário: Hermógenes: Professor e Poeta do Yoga, na aquarius

Livro: Humor: O Papel Fundamental do Riso na Cultura, de Terry Eagleton

Livro: Humor: O Papel Fundamental do Riso na Cultura, de Terry Eagleton

Livro: O Efeito do Riso, de Ros Ben-Moshe

Livro: O Efeito do Riso, de Ros Ben-Moshe

Pedro Nunes

Pedro Castro Nunes é redator e produtor audiovisual, apaixonado por televisão, rádio e pela escrita. Como bom observador, escuta mais do que fala, lê mais do que escreve e é impactado mais do que impacta — às vezes, contudo, inverte o jogo.

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